segunda-feira, 27 de julho de 2020
KYO
O kyo é um estado de desatenção dentro de um combate. É quando você "desliga", perde o zanchin (estado de atenção).
O tempo de uma luta parece pouco no karate - um minuto e meio no Tradicional. Dois minutos na JKA, ou cinco minutos em uma luta final JKA.
Parece pouco. Teoricamente é fácil ficar totalmente atento durante todo o tempo de luta. Mas na verdade, é muito mais difícil do que parece...
Durante qualquer luta, é comum a nossa cabeça "viajar", dar uma desligada que pode durar frações de segundo, ou até um pouco mais. É quando desconectamos do combate e pensamos nas dores e lesões que sentimos ("meu tornozelo está doendo muito!"); No espaço físico ("esse tatame está muito macio"); Na arbitragem ("vou me colocar de frente para aquele bandeira, porque acho que ele pode marcar meu ponto"); Ou até no que está acontecendo do lado de fora do koto ("a arquibancada está lotada! Meus pais estão me vendo lutar...").
Esses são apenas alguns exemplos do que pode levar um atleta a se desconectar da luta, e entrar em estado de kyo.
Obviamente isso não é bom, e deve ser evitado com unhas e dentes. Mas o simples fato de pensar em não entrar em kyo, já pode se transformar em um momento de desatenção. Ficar pensando o tempo todo nisso gera estresse e desconforto, e isso leva à desatenção.
Mas como, então, manter-se atento todo o tempo sem pensar nisso?
Treino.
O treinamento constante leva à mecanização dos golpes. Um atleta treinado não precisa pensar em não abrir o cotovelo na hora de dar um soco. Ele simplesmente não abre porque treina assim diariamente. Seu corpo já responde sem que ele pense nisso. Da mesma forma acontece com o estado de kyo.
Existem diversos treinamentos para evitar que entremos em kyo, para nos condicionar a estarmos sempre atentos enquanto estivermos em um combate - seja dentro de uma academia ou em uma competição.
No link abaixo, um vídeo sobre kuo, onde dou exemplos de treinamentos que utilizo para tentar jamais entrar em estado de desatenção durante uma luta.
https://www.youtube.com/watch?v=YEQCwGltaCg
OSS!
domingo, 26 de julho de 2020
Juntos por Watanabe
Aconteceu, em dois finais de semana, o GASHUKU ONLINE SOLIDÁRIO - JUNTOS POR SHIHAN WATANABE.
A inciativa partiu da vontade de ajudar o shihan Watanabe, nesse momento difícil pelo qual ele está passando. Lutando corajosamente contra um câncer de estômago, o técnico da Seleção Brasileira Tradicional desde 1990 contou com a solidariedade de mais de 40 professores de renome, que se uniram em um evento inédito com o objetivo de angariar fundos para auxiliar o shihan durante esse difícil período.
A ideia partiu do professor Josué Rocha (MG), aluno do sensei Francisco Marra.
Ele conseguiu reunir um time de primeira e o gashuku foi crescendo de forma incrível ao longo dos dias.
Josué Rocha (MG)
Ele logo encontrou as pessoas perfeitas para o ajudarem a colocar essa ideia em prática, e organizar o curso.
Foram os professores Rodrigo Lúcio e José Humberto - pai e filho, ambos de Mato Grosso - que ao serem contatados por Josué, assumiram a árdua tarefa de organizar um evento que cresceu de forma incrível.
Rodrigo Lúcio estreou na Seleção Brasileira em 1995. ra um adolescente, mas já competia entre os adultos.. Rodrigo se tornou o maior atleta da história do karate Tradicional nas categorias de enbu (misto e masculino), e um dos maiores no kata individual e por equipes. Participou da Seleção Brasileira durante 17 anos, sempre sob o comando de sensei Watanabe.
Rodrigo Lúcio
Seu pai, sensei José Humberto, foi o responsável pelo crescimento exponencial do karate no Estado do Mato Grosso. Formou inúmeros campeões nacionais e internacionais, e cedeu dezenas de atletas para a Seleção Brasileira Tradicional. É um dos mais graduados árbitros do Brasil e do mundo.
José Humberto
Eles convidaram nomes de imenso calibre e relevância no cenário nacional e internacional. Foram tantos que o curso teve que ser realizado em dois finais de semana - nos dias 18 e 19 de julho, e 25 e 26 de julho.
O saldo final foi uma participação relevante de muitas de pessoas que puderam assistir a mais de 40 horas de karate. Um prato cheio para os amantes dessa arte marcial. Os temas foram variados e as abordagens agradaram a todos os gostos.
Um evento apolítico e histórico, que uniu pessoas de diferentes tipos e diferentes organizações. O sentimento final foi exatamente esse: união.
E gratidão.
Gratidão ao mestre que tanto ensinou e que se dedicou durante décadas à Seleção Brasileira. Todos os ministrantes do curso aprenderam de alguma forma com o shihan Watanabe.
Fica aqui registrado os parabéns ao idealizador e aos organizadores, que dedicaram dezenas de horas de trabalho para que esse evento ímpar fosse realizado.
OSS!!
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Viagem ao Japão 2004 - parte 2
Eu e sensei Imura. Por incrível que pareça não tenho fotos com sensei Masahiko Tanaka. Eu ficava sem graça de pedir para tirar foto com ele...
Treino na Shokukan
Desafio Seleção Brasileira vs seleção Kokushikan
Brasil vs Dinamarca. Minha primeira luta em um campeonato mundial.
Entrada da Nikon Karate Kyokai
Troféus do sensei Tanaka na casa onde fiquei.
PARTE 2
Meu
primeiro treino foi na Universidade de Tóquio, no bairro de Kokubunji.
Lá, cerca de 20 japoneses, todos faixas pretas. O treino foi puxado pelo
capitão da equipe.
Até hoje acho que o objetivo
desse treino era me fazer desistir. Foi muito, muito puxado. Mas eu via
que eles também estavam mortos, e isso me dava energia para seguir
treinando, apesar de achar que ia vomitar de tão cansado!
No
frente a frente, treino de fila. Quando foi a minha vez de defender e
contra-atacar, um dos japoneses me deu um soco forte na cara. Nem me
abalei. Por fora, porque por dentro eu fervia de raiva. Me lembrei de
sensei Machida me falando depois de me apresentar para sensei Tanaka: "Jayme, japonês é assim: se você se abaixar, ele monta nas suas costas
como se você fosse cavalo. Então se te baterem, bate de volta mais
forte!"
E eu bati.
Esperei
o mesmo japonês rodar na fila. Quando ele chegou na minha frente de
novo, me preparei. Ele atacou, eu defendi e dei um soco que pegou ma
garganta dele. Ele saiu tossindo e eu permaneci inabalado. Por fora,
porque por dentro estava gritando!
Depois disso não
tive mais incidentes e fui muito bem tratado pela equipe da
Universidade. O único problema era a barreira da língua, porque o único
que falava inglês, falava muito mal...
À
noite, treino na Shokukan, academia do sensei Tanaka. Ele estava
viajando para dar um curso, e quem puxou o treino foi sensei Imura.
Depois
do treino me levaram para jantar. Na volta, Elia (a que falava inglês),
me levava para casa. Estávamos sozinhos no carro. Ela entrou em uma das
ruazinhas estreitas que caracterizam essa região mais afastada do
centro de Tóquio, quando os faróis iluminaram um homem de terno, parado
de costas no meio da rua. Ele falava ao celular, e não se abalou ao
perceber os faróis o iluminando. E não saiu do meio da rua. Estranhei, e
quando fui perguntar a Elia, reparei na cara de medo dela. Ela abaixou
os faróis e esperou. Fiquei em silêncio e com medo.
Finalmente o homem olhou de relance para o carro, e, sem a menor pressa, saiu da frente.
Elia acelerou bem devagar, e só acendeu os faróis depois que passamos por ele.
- Yakuza - disse ela me olhando com os olhos arregalados.
Fiquei mudo. Me senti em um filme.
O primeiro treino na Shokukan que sensei Tanaka puxou foi, sem dúvida nenhuma, para me testar ou me fazer desistir.
" Só paro de treinar se desmaiar ou morrer", pensei.
Socos e chutes em um kihon sem fim.
Mas
eu aguentei. As solas dos pés sangrando, as pernas duras e na hora de
dormir um bendito banho no minúsculo ofurô da casa (eu só cabia todo
encolhido).
Na minha rotina de treinos, além da
Universidade de Tóquio e da Shokukan, eu fui algumas vezes no Honbu
Dojo, sede da Nikon Karate Kyokai - JKA
No
jantar que deram para se despedir de mim, no final dos 15 dias de
treinos extenuantes, todos bebemos e ficamos "altos". Na hora da foto eu
estava rindo, feliz. O comprido banco de madeira onde estávamos
sentados para a foto começou a balançar de um lado para o outro e eu
balançava rindo. Achei que era uma brincadeira do pessoal. Quando vi as
expressões assustadas, mesmo tendo bebido meia dúzia de cervejas,
percebi que algo estava errado.
- Earthquake - disse Elia para mim.
Terremoto.
Por sorte o prédio inteiro "só " balançou. Mas não tremeu como vemos nos filmes. Ele balançou.
No
final da viagem, um orgulho infinito de ter suportado tudo, e de ter
honrado sensei Machida, meu sensei Ugo Arrigoni, e o Brasil. Pode
parecer bobo, mas eu sentia que estava representando a seleção
brasileira, e que deixei uma boa impressão. Gosto de imaginar que eles
tenham dito: "brasileiro não desiste!". Mesmo que não tenham dito. Gosto
de imaginar que foi essa a impressão que deixei.
No
final, foi uma experiência que mudou completamente a minha vida. Tenho
imenso orgulho e satisfação de ter perseguido esse sonho e realizado
aquilo que sempre quis.
Oss!
sexta-feira, 5 de junho de 2020
Viagem ao Japão 2004 - parte 1
Andando sozinho pelos trens do interior de Tóquio
Entrando na lendária Budokan para disputar meu primeiro campeonato mundial de karate
Alimentando a alma nos templos de Asakusa
Com parte da seleção brasileira na concentração de Gotemba. Ao fundo, o monte Fuji
Desde que entrei no karate, ouvia as histórias daqueles
que tinham ido ao Japão para treinar, e meus olhos brilhavam! Eu
imaginava aqueles filmes antigos de artes marciais que eu era viciado
quando criança. Sonhava em um dia ter a coragem e a oportunidade de
viver uma experiência dessa. Mas era só um sonho distante...
Meu
coração bateu acelerado quando recebi a convocação para integrar a
seleção brasileira que disputaria o campeonato mundial de karate JKA, no
Japão. Junto com o orgulho de representar meu país em um mundial, veio
aquela vontade antiga, aquele sonho distante: ficar treinando no Japão.
Sem
dinheiro, corri atrás de patrocínios, peguei dinheiro com meu avô, tive
ajuda de muita gente, e consegui o valor para a tão sonhada viagem.
Liguei
para a agência de turismo responsável pela seleção e pedi que minha
passagem da volta fosse colocada 15 dias após o retorno da delegação.
Onde eu ficaria e com quem treinaria, eu ainda não sabia. Afinal,
chegando lá tudo daria certo. Será?
Faltando
3 dias para o início do campeonato, depois de uma estadia de cinco dias
concentrados em Gotemba, um local isolado aos pés do Monte Fuji,
finalmente reuni coragem para ir falar com sensei Machida sobre o meu
plano de ficar no Japão.
- Sensei, eu gostaria de ficar no Japão treinando depois do mundial - disparei assim que ficamos sozinhos.
- Ah, muito bom. Onde você vai ficar?
Sem graça, respondi:
- Pois é sensei, na verdade ainda não tenho onde ficar e nem com quem treinar. Você pode me ajudar?
Ele me olhou surpreso.
- Você é maruco! - Disse, e saiu andando.
" Me ferrei", pensei
Mas sensei Machida tem um coração gigantesco e uma generosidade imensa.
No mesmo dia, o meu amigo e filho do sensei, Take, veio falar comigo.
-
Jayme, por quevocê quer ficar aqui no Japão? - Me perguntou com sua voz
tranquila. - Você que fazer turismo, conhecer outros lugares aqui?
- Quero treinar karate - respondi sem nem piscar.
-
Olha, se você quiser mesmo treinar, vai ter que aguentar. Se apanhar,
ficar cansado, quebrar o braço, não vai poder desistir. É isso que você
quer?
- Sim - respondi de novo sem piscar.
- Então vou falar para o meu pai.
No
dia seguinte, enquanto estávamos no histórico ginásio da Budokan
acompanhando as competições infanto-juvenis, sensei Machida me pegou
pela mão e disse: "vem comigo!"
Me arrastou até
dentro da área restrita aos mestres e parou diante da menda viva, sensei
Masahiko Tanaka. Fiquei imóvel enquanto eles conversavam em japonês.
Sensei Tanaka olhou para mim e estendeu a mão, que apertei nervoso. Ele
se virou e foi embora.
- Depois do mundial você vai ficar treinando com ele - disse sensei Machida.
Três
dias depois do mundial, e no dia seguinte ao torneio amistoso Seleção
Brasileira vs seleção Kokushikan , sensei Tanaka me pegava de carro e me
levava para sua casa no interior de Tóquio, em um distrito chamado
Higashi-Koganei.
Lá, houve um jantar onde estávamos
eu, sensei Tanaka, o capitão da equipe de karate da Universidade de
Tóquio (onde sensei dava aula), mais três alunos e uma mulher - a única
que falava inglês e que traduziaa conversa.
Na hora de ir embora, sensei me entregou a chave da casa e me disse: " don't loose". Não perca.
Fui dormir muito ansioso. O que o amanhã reservava para mim?
sábado, 11 de abril de 2020
Cancelamento dos campeonatos da JKA
O problema do coronavírus é bem maior do que qualquer pesoa poderia imaginar.
Causa mortes, obriga as pessoas a ficarem em casa, fecha o comércio e cancela eventos ao redor do mundo.
O famoso e tradicional torneio de tênis de Wimbledon e as Olimpíadas são talvez os mais famosos exemplos.
No universo do karate JKA, o campeonato Mundial que seria realizado em outubro, no Japão, foi remarcado para o ano que vem.
Já o campeonato brasileiro, que contaria com a presença do sensei Naka para ministrar o curso, foi cancelado. Ou seja, em 2020 não teremos o campeonato brasileiro da JKA.
É a primeira vez que isso acontece desde o início da JKA no Brasil, em 1999.
É um fato lamentável, e para todos os envolvidos (atletas, árbitros, professores e para a entidade), fica uma sensação ruim.
Mas a JKA do Brasil não tinha opção. Tinha que ser responsável e seguir as recomendações de saúde.
Os estaduais JKA foram todos cancelados também, assim como o campeonato Sul-sudeste de karate Tradicional.
Como atleta, lutando direto desde 1995 (jamais passei um ano sem competir), confesso que estou me sentindo estranho, quase como se esse fosse um ano perdido.
O fato é que os atletas devem se manter treinando, tentar ignorar o fato das competições terem sido canceladas, e se manterem focados.
É muito mais fácil nos mantermos em alto nível - tanto físico quanto tecnicamente -, do que termos que recuperar tudo ano que vem.
Seguimos acompanhando de perto o desenrolar dos fatos. Fica a torcida para que no segundo semestre essa doença maldita perca a força e a vida possa voltar - dentro do possível - ao normal.
OSS!
Causa mortes, obriga as pessoas a ficarem em casa, fecha o comércio e cancela eventos ao redor do mundo.
O famoso e tradicional torneio de tênis de Wimbledon e as Olimpíadas são talvez os mais famosos exemplos.
No universo do karate JKA, o campeonato Mundial que seria realizado em outubro, no Japão, foi remarcado para o ano que vem.
Já o campeonato brasileiro, que contaria com a presença do sensei Naka para ministrar o curso, foi cancelado. Ou seja, em 2020 não teremos o campeonato brasileiro da JKA.
É a primeira vez que isso acontece desde o início da JKA no Brasil, em 1999.
É um fato lamentável, e para todos os envolvidos (atletas, árbitros, professores e para a entidade), fica uma sensação ruim.
Mas a JKA do Brasil não tinha opção. Tinha que ser responsável e seguir as recomendações de saúde.
Os estaduais JKA foram todos cancelados também, assim como o campeonato Sul-sudeste de karate Tradicional.
Como atleta, lutando direto desde 1995 (jamais passei um ano sem competir), confesso que estou me sentindo estranho, quase como se esse fosse um ano perdido.
O fato é que os atletas devem se manter treinando, tentar ignorar o fato das competições terem sido canceladas, e se manterem focados.
É muito mais fácil nos mantermos em alto nível - tanto físico quanto tecnicamente -, do que termos que recuperar tudo ano que vem.
Seguimos acompanhando de perto o desenrolar dos fatos. Fica a torcida para que no segundo semestre essa doença maldita perca a força e a vida possa voltar - dentro do possível - ao normal.
OSS!
domingo, 15 de março de 2020
domingo, 9 de fevereiro de 2020
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