sábado, 16 de novembro de 2019

Karate pula-pula


Vi esse termo pela primeira vez há uns 14 anos, em um site de bate-papo sobre karate. Depois disso, vi o termo "pula-pula" ser repetido inúmeras vezes. Sempre se referindo aos atletas da WKF (antiga WUKO), e sempre de forma pejorativa.

O termo, na verdade, faz referência ao fato dos atletas que competem nessa federação - a maior organização de karate do planeta - , em sua maioria, se movimentarem muito, e darem pulinhos em suas fintas.
Como escrevi antes, é um termo que tenta diminuir, sacanear os atletas que lutam dessa forma. Na verdade, é um termo bem maldoso para definir toda a instituição.

"O karate pula-pula não presta"
Já ouvi muito isso também...

Eu sou do karate Tradicional. É a minha origem. Depois, conheci e comecei a competir pela JKA.
Na JKA, tive a oportunidade de lutar com diversos atletas da WKF e de outras organizações (JKS, Interestilos...)
Depois de mais de 15 anos competindo a nível nacional e internacional (meu primeiro Sulamericano pela Seleção Brasileira foi em 2002), e de ter tido a experiência de lutar nos Jogos Regionais da WKF (SP, 2010), posso dar uma opinião bem fundamentada sobre os "pula-pula".

Na verdade, quem usa esse termo deve desconhecer a qualidade dos lutadores da WKF.
Se conhecessem lutadores como Didi, Pré, Célio René, Caio D'Elia, Ciça Maia, Alexander Piamonti, e Rafael Aghayev (na foto acima), entre inúmeros outros, jamais falaria de forma pejorativa. Afinal, como falar que qualquer um desses é um lutador fraco?
Como falar que a forma que esses fantásticos lutadores se movimentam é ruim?
Na minha opinião, qualquer um desses citados acima poderia facilmente me vencer em uma competição. E não apenas por pontos, mas na pancada mesmo. A única exceção seria a Ciça, apenas porque não lutaríamos na mesma categoria.

Há de se ter respeito pelos atletas de outras entidades. Chamar de pula-pula sem jamais ter entrado em um koto para lutar contra esses atletas, é, no mímino, estranho.

A movimentação pode ser de diferentes formas. Há lutadores que se movimentam menos, outros mais. Mas o que importa é a efetividade de seus golpes. E isso muitos atletas da WKF têm de sobra.

Criticar a regra, tudo bem. Mas falar de forma pejorativa sobre milhares de atletas, é, para dizer o mínimo, falta de conhecimento.

Tenho minhas reservas em relação às regras. Mas esse é o ponto positivo de termos diferentes organizações com diferentes regras: podemos escolher aquela onde nos encaixamos melhor e onde consideramos mais interessante.

Já enfrentei adversários pesados, que lutavam parados; já tive que encarar outros que se mexiam um pouco, e depois paravam, tentando me confundir; e já lutei contra outros que se mexiam sem parar, pulando e me obrigando a recalcular a distância a cada segundo.
Já ganhei, já perdi. E percebi que cada um tem suas qualidades e seus defeitos, e que a força da pancada não tem a ver com a movimentação, e sim com a técnica da aplicação do golpe.

Há que se ter respeito, sempre.

OSS!


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Nota de pesar: sensei Stan Schmidt


Hoje, dia 07 de outubro de 2019, faleceu a lenda do karate JKA, o grande mestre Stan Schmidt (SAF)
Considerado o "pai" do karate Shotokan da África do Sul, foi um dos primeiros ocidentais a ser convidado a fazer o curso de instrutores (kenshusei) do Honbu Dojo - a sede da JKA no Japão. Depois disso, foi um dos pouquíssimos ocidentais a integrar o shihankai (grupo de grãos mestres) da JKA.

Foi o primeiro ocidental a conquistar o sétimo dan, e também o primeiro a obter o oitavo dan, tornando-se o ocidental mais graduado do mundo.

Aluno de Enoeda, Nakayama e Asai, sensei Stan deixa como legado milhares de praticantes de karate Shotokan na África do Sul - uma das potências mundiais da JKA.

No Brasil, teve como aluno o professor Roberto Sant'Anna (SP), que fez inúmeras viagens à África do Sul com o intuito de aprender com um dos melhores karatecas de todos os tempos.

Fica aqui registrada a nota de pesar de toda a comunidade do karate JKA ao redor do mundo.
Uma perda irreparável de um grande mestre que ajudou a popularizar e difundir o karate Shotokan.

OSS.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Lyoto Machida vs Gegard Mousasi


Aconteceu, nesse sábado (29-09-2019), o Bellator 228, realizado na Califórnia, EUA.
O brasileiro Lyoto Machida enfrentou o armênio Gegard Mousasi e perdeu em decisão dividida.
Na mídia, muito se fala de uma luta "morna", ou seja, um combate sem graça onde nenhum dos dois mostrou muita vontade de vencer.

Eu particularmente enxerguei de forma diferente.

Vi Lyoto Machida muito bem na luta. Seguindo o progresso que vem apresentando desde que voltou a treinar karate Shotokan regularmente, sob o comando do sensei Vinicio Antony (6 dan pela ITKF), Machida se movimentava bem e apresentava muita velocidade na execução dos golpes. Se expôs inúmeras vezes, principalmente através de seus chutes, que visavam tentar abrir uma brecha na fechadíssima guarda de Mousasi.
Vamos lembrar aqui que Mousasi tem 53 lutas de mma (com 45 vitórias) e 8 lutas de kickboxing, tendo vencido todas. Ou seja, é um dos melhores trocadores do mundo. Um atleta extremamente perigoso que já venceu nomes como Vitor Belfort, Cris Weidman, Uriah Hall, Thiago Marreta, Ronaldo Jacaré e Dan Henderson.
O armênio já tinha lutado no UFC contra o carateca, e perdeu. Dessa vez, Mousasi veio com uma estratégia bem diferente: atacou muito pouco e preferiu esperar. Dessa maneira ele evitou se expor contra as maiores armas de Machida: o deai e o contra-golpe.
Ele demonstrou imenso respeito ao brasileiro, e fez uma estratégia muito inteligente, apesar de conservadora, que obrigou Machida a se abrir e atacar mais.

Analizei a luta com atenção.
Na trocação, nenhum dos dois conseguiu ser efetivo, com Lyoto caindo duas vezes no chão, ambas por desequilíbrio, e não por golpes recebidos. Os dois atacaram com extremo cuidado e não conseguiram encaixar nenhum grande golpe. No final do terceiro round, Gegard Mousasi derrubou o carateca. E aí, para mim, Lyoto se mostrou excelente. Ficou batendo, por baixo, o tempo todo, não dando chances para o armênio fazer ground and pound. E ainda encaixou uma guilhotina que por pouco não pega - o que lhe daria a vitória por finalização.

Para mim, o justo seria um empate.

De qualquer forma fica um impressão muito positiva da atuação de Lyoto nesse combate. Que ele dê continuidade ao excelente trabalho realizado por Vinicio Antony e confie que está lutando muito bem.

OSS!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

400 lutas






Mesmo antes de lutar, eu era apaixonado pelo cartel de lutas dos boxeadores. Ficava impressionado com o número de vitórias e derrotas, número de nocautes, e lembro bem como fiquei absimado quando Julio César Chaves fez sua centésima luta de boxe.

Assim que comecei a competir no karate e fiz minha primeira luta - aos 18 anos, já na categoria adulto -, passei a anotar meu cartel. Acho que a hora que mais me dava satisfação, e talvez seja assim até hoje, seja quando chego em casa depois de uma competição e vou anotar meus números e atualizar meu cartel. No começo da minha carreira era bem fácil: era só acrescenter mais uma luta, mais uma derrota. Demorei pra começar a vencer...

Essa paixão se expandiu, e hoje eu faço o cartel de vários lutadores Na Seleção Brasileira JKA, por exemplo, tenho anotadas todas as lutas de todos os adultos, desde o ano 2000.

Quase 10 anos depois de fazer minha primeira luta - uma derrota -, eu chegava perto da luta de número 100. Que ansiedade! Aquele número tinha se tornado uma meta E, em 2004, em um campeonato estadual organizado pelo sensei Cadena, cheguei à minha centésima luta.
Dali para frente, passei a lutar mais, cresci muito e competia cada vez mais.
Demorei bem menos para chegar à luta 200, e menos ainda para fazer minha luta 300.
E agora, nesse campeonato brasileiro Tradicional de Cuiabá, no tablado suspenso e contra o Augusto Spessatto, fiz minha luta de número 400.

Imposível não passar um filme na minha cabeça.
Quantas competições, quantas lutas, quantas experiências eu tive ao longo desse caminho!

Tive a chance de lutar contra adversários que considero grandes karatecas, que tenho admiração imensa. Fabio Simões, Rafael Moreira, Wagner Pereira, Diego Andrade, César Cabral, Ricardo Buzzi, Vinícius Moreno, Ronaldier Nascimento, Chinzô Machida, Jean Laure, Vinícius Sant'Anna, Vladimir Zanca, Vinicio Antony... e tantos, tantos outros que se eu citasse um por um acabaria escrevendo um livro!

Passei por praticamente tudo dentro de um koto de competição. Já lutei em chão de cimento, madeira, tatame que se separava, tatame macio, duro, escorregadio e que agarrava o pé; já lutei sem luva e sem protetor de boca; já usei 7 tipos diferentes de luvas; lutei em 4 continentes, contra adversários de 17 países.
Ganhei, perdi, marquei ipon e senti o prazer absurdo de terminar a luta com um único golpe. Também já levei ipon, e senti a frustração imensa de perder com um único golpe...
Apanhei muito. Bati também. Já saí de um koto feliz, arrasado, com vontade de comemorar ou chorar, com sangue no rosto ou nas luvas.

Os títulos sempre foram muito importantes para mim. Claro. Luto sempre para ganhar. Mas me sentia realizado quando fazia todas as lutas possíveis em uma competição, quando voltava para casa e anotava  muitas lutas em meu cartel. Meu recorde pessoal foram 11 lutas em uma mesma competição (campeonato brasileiro Tradicional de 2013) E até hoje lembro o prazer que senti pensando: fiz 11 lutas!

Quando eu me aposentar, os títulos que ganhei serão sempre muito importantes e vão marcar a minha vida. Mas quero ser lembrado não como um campeão mas sim como um lutador, um atleta que jamais desistiu de lutar ou deixou qualquer fator externo impedir de lutar. Quero ser lembrado pelas minhas grandes lutas, e não pelos títulos.

Minha carreira de atleta já está na fase final. Mas ainda espero fazer muitas boas lutas contra grandes adversários.

OSS!

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Ranking JKA do Brasil 2020



Saiu o ranking oficial JKA do Brasil para o ano de 2020.
O ranking leva em conta os resultados obtidos nos anos de 2017, 2018 e 2019.

Oss!

terça-feira, 10 de setembro de 2019

XXXI Campeonato Brasileiro de Karate-dô Tradicional



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Foi realizado, nos dias 06 e 07 de setembro de 2019, o XXXI Campeonato Brasileiro de Karate-dô Tradicional, na bela cidade de Cuiabá, MT.
Já são 31 edições dessa competição, que se firma como uma das mais fortes, antigas e respeitadas do Brasil.
A organização foi um espetáculo. O palco principal era um koto suspenso sobre um tablado, e sob uma bandeira gigante do Brasil. Lindo!

No feminino, as gaúchas fecharam um ano perfeito: foram campeãs brasileiras JKA, representaram a Seleção Brasileira JKA no Panamericano de Bogotá, e trouxeram o ouro, e agora sagraram-se campeãs brasileiras Tradicional.
No individual, Letícia Aragão mostrou que estava dominando totalmente os principais pilares do kata: técnica, espírito, ritmo e kime. Ficou com o título mostrando muita personalidade, sagrando-se Tricampeã brasileira. Sua conterrânea, Martinna Rey, atual campeã panamericana e mundial ITKF, ficou com a prata. Fechando o pódio, a atual campeã brasileira e panamericana JKA, Manuela Spessatto (RS). O nível do pódio de kata individual feminino já dá uma ideia do nível altíssimo dessa competição.

No fukugo, Letícia manteve as qualidades que havia demonstrado no kata individual. Avançou nas disputas alternadas de kumite e kitei kata, passando na semifinal por Martinna Rey. Na outra chave, a mato-grossense Nayara Amarante avançava com propriedade e teve que passar por Sara Ladeira (SP) para chegar à final.
Pequenina, Nayara usa muito bem suas qualidades para suprir a falta de envergadura: é rápida como um raio e se movimenta sem parar, mergulhando gyako tsuki tchudan quase indefensáveis.
E que luta! Que final! As duas mostravam que queriam demais ficar com o título. Foi uma batalha vencida na luta de desempate (keteisen) por Nayara que encaixou um guaku tsuki de deai.
Nayara ficou com o título.


No kumite por equipes, a Bahia mostrou a força de seu karate ao vencer a fortíssima equipe de São Paulo na grande final. Fecharam o pódio Paraná e Rio Grande do Sul.
Abaixo, o relato da capitã da equipe da Bahia, Martinna Rey:

"A equipe da Bahia  estava diferente, apenas uma veterana e, mesmo  assim, o técnico  Elias Pires confiou em nos deixar escolher nossa posição  de luta. Lutamos as quartas de final contra a rápida  equipe do MT e nos deu motivação  para enfrentar a equipe do RS, campeã  de 2018, na semi final.
Internamente, eu sabia que a Manuela  Spessatto iria abrir, pois contra equipe da Bahia ela sempre abre e eu assumi a responsabilidade de enfrentá-la. Fiz um jogo bem diferente, das minhas lutas rotineiras. Pressão sem ataque e quando a mesma perdeu a paciêcia os deais  de guiaku zuki jodan aconteceram.  A segunda luta foi entre a baiana Írvila e a Samantha. Tendo que buscar o resultado, a gaúcha pressionou e conseguiu  um jogai. Posteriormente, foi punida com um chui por causa do contato de um uramawashi. A gaúcha continuou em busca do wazari até o final da luta, e ele veio. Mas ainda estávamos  na frente. Por fim, a inspirada Luana  encerrou sua luta contra a Cristiane por dois wazari.
A outra semi final teve o enfrentamento de São Paulo e Paraná com belas lutas e destaque para a Sara Ladeira que marcou um ipon de mawashigueri.
Na final, BA x SP. Gabriella se prontifica a lutar, mas Irvila, apesar de machucada, diz que lutaria. Foi me perguntada a ordem das lutas da equipe, eu a modifiquei e o técnico  confiou. Irvila enfrentou  a Sara, que ganhou a luta por dois wazaris. Eu entrei no meio contra a Paula, marquei dois wazaris e empatei o jogo. Entra Luana contra a Lorena em uma luta muito dura, a baiana buscou o ponto o tempo todo e foi anulada pela paulista.  Eu já avistava a Sara se ajeitando  para o desempate, enquanto eu pensava o que fazer. Luana, perseverante, marcou o esperado guiaku zuki falando  apenas 2 segundos para o término  da luta. E só assim quem estava de fora conseguiu  respirar! Bahia campeã  brasileira  de kumite equipe feminino."

No kumite individual, uma final de tirar o fôlego entre duas lutadoras fantásticas: a capitã da Seleção Brasileira Tradicional, Suellen Souza (PR) e a integrante da Seleção Brasileira JKA, Sara Ladeira (SP).
E que final! A qualquer momento uma das duas poderia conquistar a vitória. Uma luta tensa, estudada e muito perigosa. No fim, a paulista conseguiu vencer a favorita Suellen, e comemorou muito a conquista desse tão importante título, sobre uma rival tão forte.
Suellen é considerada por muitos como a melhor lutadora do Brasil na atualidade. Dona de um estilo versátil, ela é uma das poucas mulheres a utilizar o ashi barai (banda). E ela ainda o faz com a perna da frente, puxando a perna da frente de suas adversárias. Todo mundo sabe que ela faz isso, mas quase ninguém consegue escapar de levar os ipon que ela faz assim. E ela tem outras armas, com um mae geri excepcional ou gyako tsuki jodan que muitas vezes levam as adversárias à lona...
Mas Sara soube controlar a luta. Usou estratégia, inteligência e muita coragem para vencer e levar o tão cobiçado título para São Paulo.

No masculino, a forte equipe do Mato Grosso, um Estado que tem imensa tradição nessa modalidade,  conquistou o título. No Tradicional, além de fazer um kata nas eliminatórias, na final a equipes deve mosrar outro kata diferente, e com o bunkai (aplicação), o que torna a disputa ainda mais difícil.
No individual, um jovem mato-grossense mostrou um kata impressionante desde as primeiras rodadas eliminatórias (heyans e tekki). Na semi-final, continuou mostrando imensa qualidade e foi para a final como favorito. E confirmou seu excelente kata, ficando com o título.

No kumite por equipes, todas as disputas foram realizadas em cima do tablado. É uma sensação diferente lutar no koto elevado. O chão faz barulho, tem uma consistência diferente, e você sabe que todos os olhos estão sobre você...
A equipe da casa passou na semi-final pelos fortes paranaenses, enquanto São Paulo vencia a Bahia na outra semi. A final de 2018 se repetia em 2019. E, após três lutas tensas e acirradas - com destaque para a última luta, entre Matheus Cirillo (campeão brasileiro JKA de 2019) e Vinícius Moreno (tricampeão mundial radicional por equipes e bicampeão panamericano Tradicional individual) -, Mato Grosso ficou com o título mais uma vez, para delírio da torcida local.

No fukugo, as disputas alternadas de kata e kumite iam peneirando os atletas, sobrando apenas aqueles mais completos. O campeão brasileiro 2018, Jean Laure (PR), chegou à final com personalidade, e viu o baiano Allan Araújo (Seleção Brasileira JKA no Panamericano de Bogotá, 2019) do outro lado do koto. Na luta final, muitos ataques de ambos os lados, mas sem que nenhum dos dois conseguisse marcar um ponto. Na luta de desempate, Allan encaixou um fortíssimo gyako tsuki jodan (soco direto no rosto). Wazari e vitória para o baiano.

No kumite individual, uma história que parece de filme...
Um paulista - Seleção Brasileira JKA no Sulamericano de 2016, no Chile, e atual campeão paulista -, resolveu sair de sua casa com destino a Cuiabá, de moto!
Demorou mais de um dia para chegar, viu coisas incríveis em sua longa jornada, e chegou motivado para o campeonato brasileiro.
Voando, ele vencia suas lutas por 2 x 0. Na final da sua chave, enfrentou o veterano e xará, Jayme Sandall. Jaime Souza (SP) enfrentou o carioca, tentando encurtar a distância e bloquear os golpes longos de Sandall. Ao final da acirrada disputa, 1 x 1 em wazari, mas o carioca levou uma punição por ter pisado fora do koto (jogai). Na semi, ele venceu o atual campeão brasileiro JKA, Matheus Cirillo, por 2 wazari.
Na grane final, Jaime enfrentou uma lenda viva do karate brasileiro: Fábio Simões.
Fabinho chegava à sua segunda final em um campeonato brasileiro de karate Tradicional (a outra fora em 2015, contra seu companheiro de treinos César Cabral, onde ficou com o vice). Simões tentava conquistar o título e se juntar a um seleto grupo de lutadores que foram campeões brasileiros de kumite individual tanto na JKA quanto no Tradicional: apenas Jayme Sandall, Lyoto Machida, Chinzô Machida e Matheus Cirillo conseguiram o feito.
Mas Jaime estava no seu dia. Venceu por 2 x 0. Campeão com postura, karate forte e uma coragem imensa.
Voltou para casa de moto, deve ter visto muita coisa, e com um sorriso imenso no rosto e a medalha no peito.



RESULTADOS

Feminino
- Kata por equipes: 1) RS (Manuela Spessatto, Cristiane Babinski e Kauane Sgarbi) / 2) BA / 3) MT

- Kata individual: 1) Letícia Aragão (BA) / 2) Martinna Rey (BA) / 3) Manuela Spessatto (RS)

- Fukugo: 1) Nayara Amarante (MT) / Letícia Aragão (BA) / 3) Martinna Rey (BA) - 3) Sara Ladeira (SP)

- Kumite por equipes: 1) BA / 2) SP / 3) PR - 3) RS

- Kumite individual: 1) Sara Ladeira (SP) / 2) Suellen Souza (PR) / 3) Carolina Zampa - 3) Samantha Martello (RS)



Masculino
- Kata por equipes: 1) MT (Nalberth Amarante, Fillipe Salvaterra e Marcos Amorim) / 2) SP / 3) PR

- Kata individual: 1) Nalbert (MT) / 2) Assad Haddad (SP) / 3) Andrew Marques (SP)

- Fukugo: 1) Allan Araújo (BA) / 2) Jean Laure (PR) / 3) Jayme Sandall (RJ) - 3) Caetano da Silva (PR)

- Kumite por equipes: 1) MT / 2) SP / 3) BA - 3) PR

- Kumite individual: 1) Jaime Souza (SP) / 2) Fábio Simões (SP) / 3) Frank Manera (RS) - 3) Matheus Cirillo (SP)








segunda-feira, 19 de agosto de 2019

II Campeonato Panamericano JKA 2019










Aconteceu, na cidade de Bogotá, Colômbia, nos dias 10 e 11 de agosto, o II Campeonato Panamericano JKA 2019.
A bela cidade foi palco de disputas aciradas entre as centenas de atletas de 15 países presentes.
Foi um evento grandioso, que comprovou que a JKA cresce cada vez mais nas Américas.

No infanto-juvenil, já deu para ver que enfrentaríamos um grande problema: a altitude!
Localizada a cerca de 2.600 metros acima do nível do mar, a cicade de Bogotá se mostrou um desafio gigantesco para a maioria dos atletas. Era assustador ver uma procissão de lutadores serem atendidos pelos médicos que ministravam oxigênio para tentar resolver a falta de ar.

Mesmo assim, o desempenho dos nossos atletas foi espetacular. Como de costume, as categorias de base do Brasil são fortíssimas, e conquistaram inúmeras medalhas para o nosso país.
Destaques para Aníbal (RJ), campeão da categoria 15 e 16 anos. Para Guilherme (GO) e Débora Trindade (SP), que na categoria 17 e 18 anos trouxeram o ouro no kumite individual. Trouxeram o ouro também, na categoria 19 e 20 anos, masculino e feminino, os paraenses Enzo Pantoja e Lívia Vale.
Para conquistarem seus títulos, os 4 tiveram que travar duríssimas batalhas contra lutadores de diversos países.

No máster, ficou provado que o Brasil tem karate forte em todas as categorias: desde as de base, passando pelo adulto e culminando nos mais experientes. Destaque para Diogo Yoshida (RJ), campeão de kumite da categoria 51 a 55 anos, e para Rogério Corecha (RJ), campeão de kata individual da categoria 40 a 45 anos.

Nesse panamericano - o mais cheio até agora - havia centenas de atletas de 15 países.

No adulto, o que escrevo aqui parece uma repetição do ano passado. Mas ninguém é capaz de imaginar o esforço e sacrifício a que essa fantástica atleta se submete durante o ano todo para chegar aqui na sua melhor forma: Manuela Spessatto (RS), mais uma vez conquistou o título do kata individual. Foi seu sétimo título continental (5 sulamericanos e 2 panamericanos), a maior vencedora entre homens e mulheres, de uma mesma categoria individual. Ela ainda liderou na equipe que deixou as argentinas em segundo lugar. Completaram a equipe campeã de kata as gaúchas Cristiane Babinski e a estreante na equipe brasileira - que mostrou personalidade e estrela -, Kauane Sgarbi.
São nada menos do que 17 títulos continentais na JKA para Manuela. Dificilmente surgirá, em qualquer outro país, uma atleta tão dominante nas categorias de kata quanto a brasileira. Vendo seu Gojushiho Sho, fica a esperança de uma histórica medalha no mundial do ano que vem, no Japão.

No kumite por equipes, apesar de lutarem com raça e técnica, as brasileiras não conseguiram superar a forte equipe argentina, liderada pela experiente Jeanette Castañeda. Lívia Vale estreou entre as adultas e demonstrou que não sentiu a pressão, lutando de forma calma e ojetiva. A equipe feminina tem tudo para lutar pelo título no mundial do ano que vem, no Japão. Completaram a equipe Manuela Spessatto, Martinna Rey (BA) e Sara Ladeira (SP). Venceram bem as mexicanas na semi-final, mas perderam na grande final.

No kumite individual, Martinna e Juliana Vitral (MG) se classificaram entre as 8 melhores. Martinna perdeu sua luta, mas Vitral avançou, e depois de uma batalha duríssima contra a grande favorita, Jeanette Castañeda (ARG), vencida por 2x1, a brasileira se classificou para a grande final.
Agora, no histórico de lutas contra aquela que é considerada a melhor lutadora das Américas, o placar está empatado: 2 vitórias para Juliana e 2 vitórias para Castañeda.
Era a segunda vez que a mineira se classificava para a final do kumite individual. Em 2012, no Peru, ela trouxe o ouro para o Brasil.

Dessa vez, enfrentando uma argentina alta e técnica, Juliana não conseguiu impor o seu jogo, e foi superada no desempate.
Ela não perdeu o ouro. Na verdade conquistou a prata em uma categoria dificílima. Temos sempre que lembrar que na JKA não há divisão de peso. Portanto, somente um atleta é campeão do kumite. Todos lutam na mesma chave.  Aenas se classificar entre os oito melhores, como fez também Martinna Rey, já é um feito que merece aplausos. Chegar à final então, é uma honra para qualquer um.
Parabéns!


No masculino, nosso campeão brasileiro de kata individual, Rogério Higashizima  - único brasileiro campeão sulamericano individual (Brasil, 2015) - conseguiu se classificar para grande final, depois de 4 rodadas eliminatórias. Ficou em quarto lugar, por apenas um décimo de diferença em relação ao terceiro colocado. Eles chegaram a empatar, e no desempate o adversário levou a medalha por um décimo.

Na equipe, tivemos um problema ainda antes da viagem. A equipe formada por Wendell Gonçalves, Rogério Corecha e Ronaldo Corecha, bicampeões brasileiros em 2018 e 2019, a atuais vice-campeões panamericanos (2018), não foi para Bogotá. Dois dias antes da viagem, Wendell fraturou o dedo da mão, e precisaria passar por cirurgia.
Às pressas, a Seleção teve que resolver esse problema: Rogério Higashizima, Rodrigo Arita (SP) e o estreante na categoria adulto, Lucas Coimbra (BA), se juntaram para formar a equipe brasileira de kata.
Eles dedicaram cada minuto aos treinos. Abriram mão, por vezes, de treinar seus katas individuais para representarem o Brasil na categoria por equipes. E a imensa dedicação, aliada à qualidade do karate dos três, rendeu frutos: nossa equipe conquistou a medalha de prata.

No kumite por equipes, sensei Machida decidiu fazer um teste com os mais novos. Ainda na sexta-feira, durante os treinamentos em um belo parque e Bogotá, ele disse que esse ano queria testar os mais jovens para ver como se sairiam lutando pela categoria mais importante - e consequentemente a que tem mais pressão para se participar.
Na equipe, apenas o capitão Fábio Simões (SP), era experiente. Ele ficou encarregado de ser o técnico e armar a equipe que enfrentaria um árduo caminho para ser campeã.
Na primeira rodada, Enzo Pantoja (PA), Leão Mazur (BA), João Lima (PA), Matheus Cirillo (SP) e Peterson Lozinski (SP), venceram os fortes canadenses.
Na semi, pegaram aqueles que são os maiores rivais do Brasil: a Argentina, atual vice-campeã mundial (Irlanda, 2017). Nesse momento, mostraram imensa personalidade e espírito de luta. Provaram que apesar de muito jovens, já são lutadores formados e preparados para qualquer desafio. Perderam por conta da imensa qualidade da equipe rival. Os argentinos usaram toda a sua experiência e paciência para vencer o confronto. Na grande final, os hermanos se vingaram da derrota sofrida no panamericano passado para os chilenos, e conquistaram o título pela quinta vez (2008, 2009, 2013, 2015 e 2019).

No individual, mais de 80 atletas de 15 países.
Cada rodada era uma verdadeira batalha.
A imensa chave foi dividida em 8 chaves de 10. O campeão de cada uma iria para as finais.

Matheus Cirillo (SP), se classificou entre os 8 melhores. O atual campeão brasileiro mostrou a mesma velocidade e precisão que lhe renderam o título de 2019. Foi superado no detalhe pelo chileno.

Jayme Sandall (RJ), em seu décimo segundo e último panamericano (2002 - 2019), conseguiu também ser campeão da sua chave e se classificar entre os 8 melhores das Américas. Ele se igualou a outro Brasileiro, Rafael Moreira (RS) - cada um tem 6 participações entre os "best eight".
Na luta final de sua chave, Jayme empatou duas vezes contra um chileno jovem. Foram quase 6 minutos de luta. O brasileiro venceu por 2 x 0 na terceira luta, mas ambos saíram do koto carregados, devido à falta de oxigênio. A altitude de Bogotá cobrava o seu preço...
Na luta seguinte, Jayme enfrentou Jorge Rivas (ARG). Ainda tonto, não conseguiu reagir depois de levar 1 x 0. A luta terminou e Rivas foi adiante.
Foi a despedida em campeonatos continentais JKA de Sandall e de Rafael Moreira, que lutou no individual e perdeu na segunda rodada. Os dois deixam para trás uma história que se confunde com a história de formação da Seleção Brasileira JKA. Ambos fizeram parte da equipe do I sulamericano, em 2002, quando ficaram com a prata, vencendo a Argentina na semi e perdendo para o Chile na final.
Agora, para os dois - e também para Fábio Simões - fica a expectativa de uma convocação para o Mundial do Japão, para então encerrarem sua longa e vitoriosa estrada na Seleção Brasileira.

O outro brasileiro que se classificou entre os 8 melhores foi Sidinei Zucchi (RS).
Chamado de última hora pra a vaga de Frank Manera (RS), que não pôde vir, Sidinei veio com muita vontade de mostrar que tem seu lugar na Seleção. Classificou-se entre os 8 com duas vitórias espetaculares nas primiras rodadas. Contou com a ausência de Marcelo Monzón (ARG), que quebrara o nariz na disputa contra o Brasil, e passou pela terceira rodada. Entre os 8 melhores, ele não diminuiu o ritmo e venceu o mesmo argentino que havia vencido Rafael Moreira. Ele estava na semi-final!
Fez uma luta parelha em que quase venceu o chileno que tirara Matheus Cirillo. Perdeu por muito pouco.
Conquistou o bronze e entrou em um seletíssimo grupo de medalhistas de kumite individual em campeonatos continentais JKA: Roberto Pestana (2002), Fábio Simões (2008 e 2009), Jayme Sandall (2012), César Cabral (2013) e Rafael Moreira (2015 e 2016).
Sidinei escreveu seu nome na história.

Fica aqui registrado o agradecimento de toda a Seleção aos árbitros que nos davam imensa segurança nas disputas; aos técnicos que mais uma vez se dedicaram inteiramente aos atletas; ao nosso presidente, Roberto Tanaka; ao nosso mestre, Yoshizo Machida; e ao shihankai, que conduziu tudo de forma harmoniosa e correta.

Que venha o mundial de 2020!

OSS!